Meu edifício inteiro.

Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.
Clarice Lispector


há aspectos da minha personalidade que nem em muitos anos da minha vida, que nem com os melhores terapeutas eu irei conseguir superar. são aspectos já tão enraizados em mim, que extirpá-los significaria anos e anos de procedimentos tão invasivos que acho que chegaria o dia em que eu não saberia quem eu sou. por exemplo, a eterna necessidade de ser diferente. e por ser diferente, eu quero dizer quebrar regras. como a regra que diz que devemos começar toda frase com letra maiúscula. logo me vem a cabeça o porquê. e disso vem outro defeito: tudo eu tenho que questionar. e as coisas têm que ter uma lógica para mim. uma lógica que nem sempre é a do mundo, mas que é a minha, e que o mundo deve se adaptar para ser exato e compreensível para mim. eu quero padronizar os acontecimentos, as pessoas, as ideias. coloco tudo em gavetas separadas e devidamente classificadas. eu quero organizar o impossível.

eu quero dar o meu sentido as coisas dos outros. como se o outro fosse uma extensão de mim. e o outro é esse outro. aquém, além, não sou eu. não é meu. mas se eu não controlo, se eu, de alguma forma, desconfio que não sei, que desconheço, que não faço ideia, eu piro. conto os dedos, ainda são dez. 4 + 6 ainda são dez. e dez e dez são vinte. ainda são vinte. a Terra gira ao redor do Sol. A lua ao redor da Terra. O mundo ainda gira, meus pés ainda estão no chão.

E percebo que eu esqueci de respirar. E agora estou cansada. Não quero mais quebrar as regras. Não quero mais ser eu.

Mas eu não sei ser outra. essa outra, aquém, além, que não seja eu.

E agora, Carlos?

Carlos me falou sobre uma pedra no meio do caminho. Algo incômodo e paralisador que o fez narrar repetidas vezes a banal (?) existência do objeto. Ele estava lá e ninguém poderia negá-lo. Ele via a pedra. A pedra o via em retorno. Ninguém se mexia. A pedra pela sua impossibilidade natural. Carlos, não sei ao certo dizer.

Deixe-me contar, querido Carlos, que também avistei essa pedra e que de pronto, também fiquei imóvel e contemplativa. Chutei a infeliz na intenção de tirá-la das minhas vistas, para me curar de seu efeito hipnótico. A danada acertou o meu dedo mindinho. A dor foi lancinante.

Estudo a pedra com curiosidade. Não deveríamos pulá-la, Carlos? Ela está lá, não podemos negá-la e ela, por sua natureza, não vai a lugar nenhum.

Me questiono: porque não iríamos nós?

Empezar


tudo que é início me assusta. Desconfio de tudo. Quero revirar os verbos e os predicados, encontrar sujeitos ocultos. É uma diligência. Quero ter certeza de tudo, controle de tudo. Eu tenho medo de sofrer. Mas apesar disso, eu acho que sofro bem. Espero tanto por esse sofrimento que quando ele chega é quase um alívio. Sou uma pessimista incorrigível, esperando sempre pelo próximo acontecimento que dará vazão ao que penso do mundo: nada nunca dará certo e se deu, nunca será por tempo suficiente para que eu vença essa ideia e aceite a felicidade.

Estou fadada.