na bruma leve...

Para leigos, dias nublados podem se dissipar ou precipitar.
Tudo depende das condições climáticas.

Um meteorologista poderia te explicar melhor.

Eu, por outro lado, olho os céus sempre com dúvida do que dias nublados podem me trazer.

Quem sabe o calor seja motivo de precipitação?
Chova com tudo e com força.
Trovões tirem a paz, raios cruzem no horizonte.
Não é algo que se possa ignorar.

Quem sabe, porém, o frio dissipe?
Esfrie, condense.
Até que o céu está limpo e ninguém lembra de dúvida.
Outro dia, outro clima, outro lugar.

Só não posso suportar que nada aconteça...

Espaço-tempo

a rotina, às vezes, salva. O sol nasce, você acorda. Toma café, banho e coragem. Embarca na aventura daquele dia igual, repetitivo e constante. Retorna ao lar depois que o sol já nos deixou. Janta, reflete e dorme. Sonha?

O dia seguinte ocorre como o precedente.

Mas tem dia que não. Tem dia que um instante diverge dos demais.

Um brisa diferente passa. Quem sabe você tropeçou e a dor te tirou do eixo. Um perfume capturou sua lembrança. Uma melodia desperta sua pulsação. É um tom de azul ou de voz.

E, então, a Terra não girou ao redor do sol.
Desafia-se Einstein.
O oito vira sete.

o instante, todavia, passa. A rotina te nubla e resgata.
E segue.

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chego à casa. Abre-se a porta e a sala está entulhada. Dou dois passos e já tenho que desviar de uma caixa. Umas outras são quase pilastras mal conjuntadas prontas a desmoronar. Passo com medo e pressa.
Procuro a dona da casa.
Já habituada àquela confusão, ela desliza entre caixotes, caixetas, baús, arcas. 
Senta numa nesga de sofá descoberta com as pernas próximas ao corpo. Tem alguns roxos, provavelmente de bater em quinas dessa confusão.
Olha e me sorri. 
Eu me sento no único pedaço de chão que parece estar vazio, o único no qual couberam meus dois pés paralelos em pé. 

Observo-a distante, esquisita, um semblante vazio.

- Dora, o que é isso tudo?
Ela me olha como se não me ouvisse. 
- Você viu como choveu ontem? Adoro tempos frios. São tão mais agradáveis.
- Sim, são. Mas você não me respondeu.
- E o Temer, será que cai?
- Tomara, mas você ainda não me respondeu.
- To com fome. Topa um japonês?
- Desisto.

Ela se ajeita para chegar mais perto de mim. 

- Isso são coisas que eu separei para irem embora. As olhei, escolhi, decidi. Empacotei. Mas agora não sei como fazer. Não me pertencem, não fazem parte de mim. Porém ocupam esse espaço que parece que  vai morrer se tiver vazio...

- Japonês, então.

Ela pegou a bolsa e saímos.