por onde andei?

Sento aqui nesse canto escuro empoeirado que não visito há meses.

O sentimento é confuso, contraditório, sinuoso, desconexo, às vezes.

Desconcertante.
(Como um roupa esquisita que se veste e quando se anda na rua, parece que todos te olham. Mas ninguém te percebe, na verdade. Você que acha que exala incômodo a cada esquina.)

A lembrança viaja, o arrepio da nuca.
Fecho os olhos.
E aquilo me machuca.

Faço uma oração.
Nada me alivia.

Pesado coração
Desejo pungente.
E agora?

Me levanto.
- vou me embora.

Mas atravesso a porta a passos curtos e lentos para me convencer de ir.

a memória é meu único souvenir.


Porque não, não é resposta.

Quando a gente é criança, parece que todos os nossos desejos são justificados.
Criança quer tudo, aponta para tudo, pede tudo.
E se não é atendida, enche o interlocutor de porquês seguidos e de argumentações fantásticas.
Se vencido pelo cansaço ou pela alegação, a criança recebe sua vontade.
Se não, é enganada com outra coisa.

Nesses dias percebo que ser adulto é reprimir desejos com os ecos das negativas recebidas.

Queria ser criança e ter direito aos meus infinitos porquês e poder exprimir minhas argumentações fantásticas e ser vencida pelo cansaço e ser enganada com outra coisa.

Qualquer outra coisa para esquecer.


Tenho um sonho em minhas mãos...

Na playlist aleatória da minha vida, hoje toca "Sonhos" do Caetano.


As coisas simples têm beleza, mas as complexas têm muito mais. Sempre achei o efêmero absurdamente excepcional, porque é preciso capturá-lo no momento em que ocorre. 

E é único.

Tenho nada para dizer que já não tenha dito sem falar. 

A língua portuguesa é uma das mais difíceis do mundo. E também a mais rica.
O silêncio é ainda melhor porta-voz.