Se tens um coração de ferro...

uma ou outra cicatriz, vez ou outra, se mostra nem tão sarada assim. 
Um pequeno descuido e ferida aberta. 
A superfície da pele parecia sã. 
Só uma marca registrava o sucedido, já tão sutil quanto o guardado na memória.

Mas as camadas mais profundas da derme ainda teimavam em não curar e se mantinham abertas pelo incentivo de pequenas torturas inconscientes. 

A mente cria a armadilha e o corpo dança a dança no ritmo do ardil. 
Enquanto baila e acompanha o par que o conduz, o corpo se regozija, sem desconfiar que o que experimenta é a última refeição de um condenado. 

E os condenados sabem que o prazer daquele momento não consola nem impede o porvir. 

Logo a dor chega, pontiaguda no peito, certeira na cicatriz e sangra...

na bruma leve...

Para leigos, dias nublados podem se dissipar ou precipitar.
Tudo depende das condições climáticas.

Um meteorologista poderia te explicar melhor.

Eu, por outro lado, olho os céus sempre com dúvida do que dias nublados podem me trazer.

Quem sabe o calor seja motivo de precipitação?
Chova com tudo e com força.
Trovões tirem a paz, raios cruzem no horizonte.
Não é algo que se possa ignorar.

Quem sabe, porém, o frio dissipe?
Esfrie, condense.
Até que o céu está limpo e ninguém lembra de dúvida.
Outro dia, outro clima, outro lugar.

Só não posso suportar que nada aconteça...

Espaço-tempo

a rotina, às vezes, salva. O sol nasce, você acorda. Toma café, banho e coragem. Embarca na aventura daquele dia igual, repetitivo e constante. Retorna ao lar depois que o sol já nos deixou. Janta, reflete e dorme. Sonha?

O dia seguinte ocorre como o precedente.

Mas tem dia que não. Tem dia que um instante diverge dos demais.

Um brisa diferente passa. Quem sabe você tropeçou e a dor te tirou do eixo. Um perfume capturou sua lembrança. Uma melodia desperta sua pulsação. É um tom de azul ou de voz.

E, então, a Terra não girou ao redor do sol.
Desafia-se Einstein.
O oito vira sete.

o instante, todavia, passa. A rotina te nubla e resgata.
E segue.