Desatando nós...e nós!

Um emaranhado de fios. Quando penso na minha memória, eu me vejo perdida num emaranhado de fios vermelhos sem continuidade, presos uns aos outros por nós mal dados. Um ato falho, uma caminhada descuidada e os fios se desfazem e eu perco dias e dias de lembranças. Toda a tentativa de refazê-los termina numa invenção. Invento, crio e recrio o passado.

Porque é simples. Porque eu posso.

Se eu fizer força suficiente, eu me convenço. Me convenço. Eu sou absurdamente sugestionável. E se você me perguntar, lembra aquele dia em que fomos não sei a qual lugar, fazer sabe Deus o quê, acompanhados daquele monte de pessoas? E eu sinto os fios se juntando na mente, e as imagens se formando como tapetes.

Certo. Algumas dessas imagens eu nem sei porque guardei. Posso ter tido dias e experiências mais marcantes, mas a minha memória, tão rebelde, escolheu manter umas e não outras. Um sorriso. Uma lágrima. Uma frase. Palavras, gestos, horas ecoando na minha mente como fantasmas assombrando a minha sanidade.

Mas não tenho dúvidas de que está tudo lá guardado.  Está tudo lá naquele confuso e seletivo tear. Eu acredito que ninguém esquece. A gente supera. Supera o estranho prazer na dor de remoer as lembranças, de reviver diálogos, de se arrepender de atos. É esforço, é escolha. Mas a gente supera.

E o incômodo no peito que agora me toma, após desencadear certas lembranças, me faz constatar que talvez eu esteja menos curada do que eu gostaria.

Aposto minhas fichas no tempo e em seu poder de desgatar os fios dessas memórias, até que elas se percam nesse enorme e desarranjado emaranhado de nós.

3 comentários:

Lia Nandhe disse...

Adorei as metáforas do seu texto..."A memória é uma ilha de edição" (Wally Salomão). Ainda bem q eu não tenho esses problemas, minha memória é quase inexistente...

Will e Fá disse...

Não sei, talvez os fios não se percam e continuem entrelaçados uns aos outros, mas sua cor vai se desbotando e ficando menos vívida há cada dia, mês, ano... assim imagino, acho que essa é a razão de algumas lembranças ficarem mais suportáveis ao longo do tempo.

Beijos,

donluidi disse...

Ah, o tempo, sabedoria que a nós não pertence, que ameniza as dores do coração mas que também faz arder nossa alma de lembranças felizes de nossa vida. No emaranhado que é a vida não podemos perder o fio da meada (rs)