lar doce lar

eu tenho a ideia de que preciso de uma casa. E já morei em algumas. Não era a ideia de lar, não era o fato de ter um lugar para morar. Era ter a casa. Eu tenho amigos que têm casas há muito tempo e outros nunca param em casa nenhuma. Mas quem diga que não conseguimos viver sem essa casa. E eu acho que eu não consigo viver sem casa. Então, por vezes, a casa não tinha teto. Tinha as quatro paredes, mas não tinha teto. E não sei porque eu chamei aquilo de casa. E quando chovia, eu morria de frio e precisava limpar tudo que tinha ficado molhado. Era terrível para dormir. Houve a vez em que arrumei uma casa com tantas portas que eu quase não controlava quem entrava. Era muita gente naquela casa. Houve vezes em que eu trouxe pessoas diferentes para a casa. Teve a vez que a casa era escura, não tinha iluminação e eu sempre tropeçava quando estava lá dentro. Carrego as cicatrizes.  Aí, eu decidi que não precisava de casa coisa nenhuma. Passei quase dois anos vagando pelas ruas. Foi ótimo não precisar ficar preocupada se tinha trancado as janelas e as portas, se tinha desligado o gás, se havia comida, com a hora de voltar. Eu não tinha para onde voltar. Eu era livre dessas amarras. Vez ou outra, eu pensava em ter uma casa de novo. Pela casa, não pelo lar ou pelo lugar para morar.

Foi quando vi um terreno. Parecia bem iluminado, a localização não era ruim. Vez ou outra eu vou ao terreno e construo alguma coisa. Às vezes passo mais tempo que deveria, mas não tanto quanto queria. Até que eu comecei a reparar em certos sinais de ratos. Eu não vi os ratos. Mas eu vi os sinais. Agora olho para aquele terreno em que idealizei uma casa tão linda com tanto pesar e medo. Quase amaldiçoo toda a ideia de construir uma casa. Talvez eu pertença às ruas. Talvez eu possa dormir numa casa ou outra de vez em quando. Mas começo a ter certeza de que nunca terei um lar.

Um comentário:

Nerito disse...

Todo mundo é estrangeiro. Às vezes, do próprio corpo.

Depois de um tempo, estou de volta. Mais tarde volto e leio os demais textos. Beijo.