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fim?

to aqui assistindo a impressora dar concretude ao que me consumiu pelos últimos 30 meses. Cada folha nova que a impressora cospe, cheia de letras, palavras, frases, parágrafos, vão dando forma ao meu suor, minhas noites mal dormidas, minhas pesquisas, minha produção de conhecimento. Quem diria.

Cada folha que se sobrepõe a anterior vai dando volume ao meu aprendizado, ao quanto eu cresci [chorei, briguei, cansei, pirei, adoeci, mas sem dúvida, cresci].

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escrever/falar em inglês sempre me fascinou porque sempre se qualifica antes de dizer o que é. É o blue pássaro, a beautiful flor. E não é sempre o adjetivo que nos chama atenção antes do substantivo?

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o cansaço mental existe. E ele mora comigo.

[nem te] conto II

A manhã de hoje lembrava aquelas de prenúncio de primavera. E eu, uma ingênua crédula da previsão do tempo, havia me vestido o suficiente para aguentar os ares polares do sul. Então, eu sentia calor e estava claramente incomodada.

De qualquer forma, eu agia como em todas as vezes em que passava em frente àquele prédio: com esperança. Desde que descobri que a empresa em que você trabalha tinha sede perto da minha casa, aquela rua era caminho certo, seja qual fosse o meu destino.

Era todo um ritual para te atrair. Eu colocava no MP3 a sua banda favorita, estava sempre perfumada e com  as unhas pintadas. Andava o mais devagar que a minha idade permite e tentava que aquilo fosse o mais casual possível.

O cheiro daquela rua era sempre o mesmo. Não era o novo jardim do prédio recém construído do outro lado da calçada, nem dos livros novos da livraria da esquina. Era um cheiro de nostalgia. Eu prendia a respiração em ansiedade e sentia o seu perfume. Olhava disfarçadamente para trás. Quem sabe você tinha passado por mim e eu não tinha reparado - o quanto será que os anos podiam ter te mudado? Mas para trás não tinha ninguém, só a saudade.

E hoje foi mais uma daquelas quartas-feiras, de muita esperança [fantasia?] e pouco resultado, tentando ainda driblar os desígnios do nosso destino...

"O tempo rodou num instante...Nas voltas do meu coração..."

- E se for um sinal?

E tudo na nossa vida tinha sido um. Desde aquela maldita conta de bar que eu não consegui pagar por ter perdido o cartão, que me atrasou a chegar em casa, que foi a gota d'água de um relacionamento falido e minha mudança definitiva para o bairro das Laranjeiras.

Eu não conseguia vê-la por aquele insulfilm número sei lá quanto. Eu só a imaginava vestida de noiva, nervosa, provavelmente roendo as unhas, como no primeiro dia em que nos vimos.

Eu estava distraído e não imaginava a minha sorte. Não precisaria pedir outro cartão e esperar os 15 dias [in]úteis que ele demora para chegar e enfrentar as filas do banco para sacar os 10 reais da passagem. Eu sempre esqueço de contar com o da passagem.

- Gabriel?

Eu me virei e a vi lendo o nome no cartão. Eu fiz que sim e ela sorriu. Quis convidá-la para almoçar, para retribuir o retorno em segurança do meu cartão do banco. Ela olhou o relógio. Hesitou. E, no final, disse: - por que, não?

E o almoço se estendeu quase até a janta de tanto que conversávamos. Ela foi embora e nem número trocamos. E nem foi preciso. Nos cruzamos tantas outras vezes em situações inusitadas. No metrô, enquanto cedia lugar para uma senhora, num Flamengo e Vasco, na praia, num hall de elevadores no centro e na padaria numa manhã de primavera. Foi quando descobri que ela também morava nas Laranjeiras.

Quando a gente se beijou pela primeira vez, chovia. E ela disse que era como no cinema. E mesmo quando brigamos e terminamos antes daquele carnaval, nós acabamos em casas de veraneio vizinhas e fizemos as pazes naquele quarto quente de um ineficiente ventilador de teto, afogados em suor e repelente.

Foi mais ou menos nessa época que fiz a tatuagem da bússola que apontava para o "N" de Norte, mas que na verdade apontava para ela, "N" de Núbia. E Deus sabe o custo que foi convencê-la a se casar na igreja para agradar minha mãe.

Tudo isso para no dia do casamento o padre sumir.

- Meu amor, fica calma. Deve ter acontecido alguma coisa. O trânsito dessa cidade é um inferno, principalmente quando chove.

- E eu achava que os padres moravam nas igrejas...

O padre chegou molhado e sujo de graxa e o casamento atrasou 2 horas. Quando finalmente ouvi a pergunta, queria dizer que tudo aquilo era livre e espontânea vontade do destino. Mas resumi tudo.

- Sim.

[nem te] conto.

O fato de eu não ter levantado os meus olhos do livro não significa que ele não saiba que eu o reconheci. A tremida leve no canto dos meus lábios devem ter me denunciado.
Mas também quem pode me culpar?
É ele quem continua a usar o mesmo perfume. E a mesma blusa xadrez.

Quando ele se aproximou e parou ao meu lado, eu senti a fragrância invadir minha mente de lembranças e meus olhos que iam de um lado pra outro nas páginas do romance paralisaram.

E se não fosse o perfume, eu nem me lembraria dele.
E se não fosse aquela foto nossa que eu guardo no terceiro livro da estante e que eu olho todas as quartas-feiras, eu nem reconheceria o seu rosto.
E se não fosse eu mesmo quem tivesse dado pra ele a blusa xadrez no natal de 2009, ele seria mais um na multidão.

Eu nem me lembrava mais o que estava lendo. Virava as páginas de maneira despreocupada. Umas vezes mais rápido, outras mais devagar. Enquanto ele parado ao meu lado, não fazia nada. Era como se ele tivesse escolhido aquele lugar por acaso.

Eu não fazia ideia de quanto tempo aquilo duraria. Não sabia em que estação estava. Não sabia em que estação ele saltaria.

Depois de um tempo que pareceu uma eternidade, ele se mexeu. Caminhou em direção à porta contrária. Eu levantei a cabeça e o segui com o olhar. A composição parou na estação e ele desembarcou sem olhar pra trás.

Então ele havia realmente me esquecido, como havia prometido fazer.
Que bom que eu também.

Make yourself home

Pode entrar.
Fica à vontade, a casa é [quase] sua.

Não repara a bagunça. Nem essas fotos antigas.
Faz um tempo que não venho aqui.
Não tenho tido tempo de arrumar, mas agora que você chegou, prometo deixar o mais organizado possível!

Não, não. Não entra nesse cômodo. A luz queimou há dias e eu não vou consertar.

Gostou do ambiente? Sentiu-se bem? Você pode ficar o tempo que quiser.

Eu tenho certeza que você vai fazer uma bagunça nisso aqui. Tudo bem.
Só não quebra nada por favor... eu levo dias para consertar. E posso não saber te perdoar.

Só me avisa quando tiver para ir embora para eu me preparar.
Eu me acostumo fácil com a sua presença.

Traga o que puder. Ocupa o teu espaço. To precisando expulsar o outro inquilino e você me faz bem.

Bem vindo ao meu coração.
É mobiliado.
O aluguel é barato.
E a vista é linda...

Pode confiar.